Precisamos falar sobre Disfunção Miccional na infância

A gravidez do Vitor foi bem tranquila, porém após o sexto mês, praticamente todas as ecografias feitas durante o pré-natal indicavam uma dilatação no seu rim esquerdo, mas nenhum médico confirmava o que era ao certo. A maioria dizia que era algo normal e que provavelmente normalizaria após o nascimento.

Duas semanas antes do Vitor chegar, procuramos uma outra clínica para fazer um exame mais minucioso que pudesse realmente confirmar ou não se havia algo errado. Desta vez, a resposta foi mais esclarecedora porém sem muita certeza do que aconteceria no futuro. Havia a confirmação de uma dilatação, mas que infelizmente só poderia ser averiguada após o seu nascimento. De qualquer maneira, não era nada que pudesse colocar a vida dele em risco naquele momento, o que nos acalmou imensamente até sua chegada.

Após o seu nascimento, já na primeira consulta com a pediatra do Vitor conversamos sobre esta questão, e fomos encaminhados para uma ecografia e consulta com um Nefropeditra. E foi quando todos os exames confirmaram que haviam lesões renais em seu rim esquerdo, causadas por um refluxo na bexiga. Essas lesões fizeram com que este rim perdesse capacidade, e hoje o rim esquerdo do Vitor trabalha com apenas 20% de funcionamento. Confesso que ouvir isso assusta, a gente logo pensa em cirurgia, transplante, medicação e tudo de ruim. Mas toda a abordagem da Nefropediatra que acompanha o Vitor desde então, nos acalmou e trouxe informação útil sobre o assunto.

Com quase 3 anos de idade, o Vitor tem uma vida normal. O refluxo foi controlado, mas ele ainda tem uma disfunção miccional que está sendo tratada com fisioterapia. Ele toma medicamentos todos os dias, tem hipertensão devido ao problema, possui restrições alimentares, faz alguns exames não tão legais com frequência, mas tudo faz parte de um progresso importante.

E por este motivo, acho importantíssimo compartilhar algumas questões relevantes sobre a disfunção miccional. E para sabermos mais sobre este assunto, convidei a querida Dra. Raquel Rennó Lisboa, Nefrologista Pediátrica, e que cuida tão bem da saúde do rim do nosso pequeno desde os 6 meses de vida, para responder algumas dúvidas.

1. O que é Disfunção Miccional?

A disfunção miccional é um termo utilizado quando um dos componentes do processo normal de micção é afetado, fazendo com que este não funcione de forma integrada. As alterações do funcionamento do trato urinário podem ser divididas em dois grupos: aquelas causadas por alterações neurológicas e as funcionais. Os distúrbios miccionais causados por alterações neurológicas (bexiga neurogênica) resultam mais freqüentemente das alterações na coluna (mielomeningocele, lipomeningocele, agenesia sacral e lesões ocultas) e ou no cérebro (paralisia cerebral). 

Os distúrbios miccionais causados por alterações funcionais ocorrem em crianças nas quais não se detectam evidências de doença neurológica. Elas podem apresentar alterações miccionais diurnas e/ou noturnas, infecções urinárias de repetição e refluxo vesicoureteral. A associação com constipação intestinal e escape fecal, por disfunção do assoalho pélvico, também é bastante freqüente, caracterizando Síndrome de Disfunção das Eliminações.

2. Escapes involuntários de xixi, podem ser sinal de Disfunção Miccional?

Escapes involuntários podem sim ser sinal de disfunção miccional, porém é preciso fazer uma avaliação correta de cada caso. Não só os escapes involuntários de xixi, diurnos e/ou noturnos, como também a retenção urinária são sinais de disfunção miccional. Apesar da importância clínica, nem sempre os sintomas sugestivos de disfunção miccional são evidentes.

Os pais e cuidadores, muitas vezes, não relatam os sintomas por desconhecê-los ou por considerá-los normais. Outras vezes, atribuem esses sintomas à preguiça da criança que brinca até o último minuto em vez de ir ao banheiro logo que sente vontade, ou que não vai ao banheiro antes de sair de casa, precisando sempre parar no caminho para evitar a perda urinária.

Habitualmente, o que motiva uma consulta são as perdas urinárias noturnas e todo o transtorno que delas decorre: pijama, roupa de cama e colchão molhados; interrupção do sono dos pais; isolamento social da criança por vergonha e diminuição da auto-estima; entre outros.

3. Como é feito o diagnóstico de uma Disfunção Miccional e qual o tratamento indicado?

A avaliação inicial é feita com uma história médica e um exame físico bem direcionados, um exame simples de urina para avaliar o funcionamento renal e descartar infecção urinária, ultrassonografia de trato urinário com ênfase na bexiga e seu esvaziamento, e, nas crianças que já saíram das fraldas, um diário miccional para avaliação da rotina urinária e avaliação do fluxo urinário através de um exame chamado urofluxometria.

Com esses exames, conseguimos identificar se a criança tem ou não a disfunção miccional. Já para o diagnóstico correto, algumas vezes são necessários exames mais específicos como a uretrocistografia miccional (para avaliação de refluxo urinário) e o estudo urodinâmico (para o correto diagnóstico de qual disfunção a criança possui). A partir do diagnóstico correto, podemos avaliar qual será o melhor tratamento.

Na maioria dos casos, mudanças de hábitos conseguem ajudar, como conscientização da criança e da família para o problema, ingestão adequada de líquidos, tratamento da constipação, micções programadas e orientações na postura adotada durante a micção. Já em casos mais complexos, muitas vezes precisamos utilizar medicamentos e/ou fisioterapia miccional.

4. A disfunção miccional pode causar riscos à saúde?

Sim.  Por isso, a importância de um diagnóstico precoce e da possibilidade de instituição de tratamento, que além de diminuir as repercussões sociais e psicológicas da disfunção miccional, pode evitar a lesão renal com formação de cicatriz e perda de função dos rins.

5. Quais as principais orientações aos pais que descobrem que seus filhos tem disfunção miccional?

A orientação é sempre procurar um especialista, entender mais sobre o assunto e ajudar a criança a superar as dificuldades com naturalidade. Somente o especialista poderá fazer uma avaliação correta e orientar cada caso. De maneira geral, quando algo começa a incomodar já é sinal de que a criança precisa de ajuda especializada.

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